DIOCESE DO RECIFE – COMUNHÃO ANGLICANA
SEMINÁRIO ANGLICANO TEOLÓGICO – SAT-PE
Recife
(PE), 11 de fevereiro de 2008.
Bispo
Robinson Cavalcanti (¬)
INTRODUÇÃO
A origem
da Igreja está na pessoa histórica de
Jesus Cristo, o Messias prometido a
Israel para as nações. A base
fundacional da Igreja está na “pedra”
(afirmativa): “Tu és o Cristo, o
Filho do Deus vivo” (Mt 16:16),
expressada por Pedro, representando o
pensamento coletivo do Colégio
Apostólico. Sobre essa “pedra” (afirmativa)
Ele edificaria a Sua Igreja: “Pois
também eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela;” (Mt
16:18). Após a sua vitoriosa
ressurreição, Ele soprou sobre os
discípulos, dizendo: “Recebei o
Espírito Santo” (Jo 20:22). Esse
Consolador prometido – Terceira Pessoa
da Santíssima Trindade – seria derramado
sobre os discípulos atemorizados no Dia
do Pentecostes, dando início à Igreja.
Cristo é o fundamento, e os Apóstolos os
seus instrumentos de expansão, desde
Jerusalém até “os confins da terra”
(At 1:8). Os Apóstolos conviveram com o
Senhor por três anos, foram testemunhas
da Ressurreição (Lc 24:48; At 2:32), e
receberam a tarefa de dar continuidade à
obra do Senhor (Mt 10:5-14; Mt 28:18-20;
Lc 9:1-6).
Os
Apóstolos se espalharam por diversas
regiões, estabeleceram centros de
irradiação do Evangelho em
cidades-chaves, as Sés, ou sedes, lugar
das cátedras, do ensino: as Catedrais.
São Marcos, por exemplo, inicia a Igreja
de Alexandria, no Egito, de onde
descende hoje a Igreja Copta, e as
Igrejas da Etiópia e da Eritréia, no
Leste da África. São Tomé evangeliza em
Antioquia, e, segundo a tradição, chega
à Índia. Dele descende hoje as Igrejas
Ortodoxas Antioquinas, Sirianas e Mar
Thoma. A primeira fase de expansão foi
no Oriente. As Igrejas Orientais são as
primeiras, as mais antigas. Não havia
uma autoridade central, mas a
instituição se baseava na colegialidade
dos bispos, metropolitas ou arcebispos
(cidades principais) e patriarcas,
reunidos em Concílio, os chamados
“Concílios da Igreja Indivisa”.
Os
discípulos dos Apóstolos foram chamados
de Pais Apostólicos, e os discípulos
destes de Pais da Igreja. Muitos foram
Mestres e muitos foram Mártires. Essa
Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica
estabeleceu o Cânon (lista oficial) do
Novo Testamento, as doutrinas nucleares,
nos Credos Apostólico e Niceno, o
reconhecimento dos dois Sacramentos
instituídos pelo próprio Cristo: o
Batismo e a Eucaristia, os primeiros
ritos e o estabelecimento universal do
Episcopado como forma de governo
eclesiástico, com os Bispos sucedendo os
apóstolos, ao lado das ordens dos
Presbíteros e dos Diáconos. Os Bispos ou
eram missionários pioneiros ou eram
superintendentes de uma região
(Diocese). Os Presbíteros pastoreavam as
comunidades locais (Paróquias), sob a
autoridade do Bispo, e auxiliados pelos
Diáconos (estes voltados
prioritariamente para o serviço).
Diferenças culturais, e de aspectos
secundários da doutrina, dividiram os
cristãos do Oriente em:
a)
Bizantinos
(a maioria) sob a liderança espiritual
do Patriarca de Constantinopla (hoje
Istambul, na Turquia);
b)
Os
Pré-Efesianos, ou Nestorianos, que
chegaram junto até o Concílio de Éfeso (431):
Igreja Assíria do Leste, que, em seu
apogeu, teve 400 Dioceses;
c)
Os
Pré-Calcedônicos, que não
incorporaram as decisões do Concílio de
Calcedônia (realizado
entre
8 de Outubro e
1 de Novembro de
451):
Igrejas Siriana, Armênia, Copta, Etíope,
Mar Thoma (da Índia). Algumas outras
Igrejas orientais, como a Maronita, a
Melquita e a Caldéia, séculos depois, se
uniriam à Igreja de Roma, mantendo a sua
autonomia, e são denominadas de
“Uniatas”.
Uma
rivalidade maior se estabeleceu entre as
Igrejas das duas capitais imperiais:
Constantinopla (depois chamada de
Bizâncio), capital do Império Romano do
Oriente, e Roma, capital do Império
Romano do Ocidente, a primeira de
cultura grega e a segunda de cultura
latina. O Império Romano do Ocidente foi
destruído pelos povos ditos
“bárbaros” no século V, concorrendo
para o fortalecimento da Igreja de Roma
como força cultural, moral e espiritual
re-aglutinadora, do que seria depois
(com hegemonia germânica) denominado de
Sacro-Império Germânico Romano, dando
lugar ao papado como poder político. O
Império Romano do Oriente subsistiu por
mais mil anos, até o século XV, com os
imperadores mais fortes que os
patriarcas, em um sistema conhecido como
césaro-papismo.
Um
conflito entre o Ocidente e o Oriente se
deu em razão da “cláusula filioque”
no Credo.
No
Oriente, a versão original dizia que o
Espírito Santo procede do Pai. No
Ocidente, posteriormente, foi
acrescentado “e do Filho”
(filioque). O Bispo de Roma nunca foi
aceito como chefe pelos bispos e
patriarcas de todas as Igrejas orientais
por muitos séculos, mas recebia
honorificamente um “primado de honra”,
por ser o Bispo da antiga capital. Seu
papel não era maior do que o do
Arcebispo de Cantuária hoje, entre os
Anglicanos.
A
história difundida no Ocidente até os
nossos dias, de que a Igreja de Roma é a
Igreja Original, fundada por Cristo em
Pedro, e que todas as outras se
separaram dela, não se sustenta pelas
evidências históricas científicas, e
nunca foi aceita pelas Igrejas do
Oriente.
Para os
historiadores das Igrejas orientais, o
Bispo de Roma, Patriarca do Ocidente, é
que se separou dos seus irmãos, não
apenas por razões culturais ou
doutrinárias menores, mas por sua
pretensão de ser “a” Igreja e ele
“o” “Vigário de Cristo”.
Lamentamos que a História da Igreja sob
uma perspectiva dos seus ramos orientais
tão antigos seja, em geral, desconhecida
no Ocidente, e que seminários reformados
continuem ensinando a mais do que
questionável versão romana.
Em
resumo: a Igreja é fundada por Jesus
Cristo, sobre o seu messiado, pelo poder
do Espírito Santo, sob a autoridade dos
Apóstolos, e dos seus sucessores, os
Bispos, com a doutrina definida nos
Credos deliberados pelos Concílios da
Igreja Indivisa.
OS
ANGLICANOS
Os
Anglicanos formam o ramo do Cristianismo
Histórico que têm suas raízes na
Grã-Bretanha, onde se situa a
Inglaterra, cuja região central é
denominada de Anglia, a terra dos
anglos. A Grã-Bretanha também inclui a
Escócia, Gales, Irlanda e a Ilha de Man.
A Inglaterra (terra dos anglos) foi
conquistada pelo imperador Júlio César
no ano 55 a.C., mas Roma levou um século
para dominar toda a Grã-Bretanha, com
suas colônias, estabelecimentos
militares e entrepostos militares, em
uma era de prosperidade, que durou três
séculos. A Irlanda, a Escócia, Gales, a
Ilha de Man e o norte da Inglaterra
passaram a ser habitados,
permanentemente, pelo povo Celta,
originário da Bulgária, no leste, e que
se expandiu por toda a Europa, fincando
raízes nas Gálias (França), Península
Ibérica e Ilhas Britânicas. O sul da
Inglaterra conheceu sucessivas levas de
invasores.
Podemos
dividir a História da Igreja na Ilhas
Britânicas em três fases:
1.
A Fase
Celta;
2.
A Fase
Católico-Romana;
3.
A Fase
Reformada.
A
FASE CELTA (Séculos I ao VII)
Não
houve nenhum esforço missionário formal,
nem das Igrejas do Oriente, nem da
Igreja do Ocidente, para evangelizar as
Ilhas Britânicas. Ela foi o resultado do
esforço dos leigos. Soldados,
funcionários civis e comerciantes
cristãos romanos levaram o Evangelho
para aquelas ilhas. Também, no ano 70
d.C., dentre os escravos perseguidos nas
Gálias (França) que fugiram para o
litoral inglês, estavam grupos de
cristãos. Uma tradição atribui à
presença de José de Arimatéia, no
primeiro século. Há sítios arqueológicos
desse período, como uma Capela em Kent,
uma Igreja em Silchester e a presença,
em vários lugares, de símbolos cristãos,
como o XP. Tertuliano afirma a
existência da comunidade cristã
britânica no ano 200. Três bispos
ingleses estiveram presentes ao Concílio
de Arles, no sul da França, em 314. Não
se sabe se estiveram no Concílio de
Nicéia (325), mas Atanásio informa que a
Igreja inglesa se submeteu às suas
deliberações.
A
realidade é que o povo Celta se
converteu ao Cristianismo, e teve o seu
primeiro mártir na pessoa de Santo
Albano, sacerdote morto durante a
perseguição do imperador Diocleciano
(305). A Irlanda foi marcada pelo
ministério de Patrício e Paládio, a
Escócia pelo ministério de Nínian e
Columba, e Gales pelo ministério de
Davi.
A Igreja
Celta tinha um forte acento místico,
ascético e missionário, sendo
influenciado pela contemplação da Igreja
Oriental, inclusive pela adoção da sua
versão do Credo. Essa contemplação
litúrgica, esse sentir da fé, essa
valorização da natureza, a diferenciava
da visão jurídica, filosófica e
institucional da Cristandade
euro-ocidental sob Roma. Sua unidade
básica era o mosteiro, com uma área de
influência, sob a autoridade de um
Abade. Alguns abades eram bispos, mas a
maioria dos bispos era missionária. Com
essas regiões abaciais, eles não
conheceram a figura da Diocese, no
modelo romano.
A Igreja
Celta funcionou até o século VII como um
ramo autônomo do Cristianismo, se
comportando como parte da Igreja
Católica (universal), mas sem vínculos
formais ou subordinação à Igreja de
Roma.
A partir
do século V as regiões sul e centro da
Inglaterra foram invadidas por anglos,
saxões e jutos, que a descristianizaram
ou re-paganizaram. Foi por isso que o
Papa Gregório Magno, decidiu enviar uma
força missionária para aquelas regiões,
formada por 40 monges beneditinos, sob a
liderança de Agostinho, que se
estabeleceram na cidade de Cantuária
(Canterbury) perto do litoral. Além do
objetivo de re-cristianizar a
Inglaterra, aqueles monges deveriam
tentar levar a Igreja Celta a se
vincular a Roma, respeitando, tanto
quanto o possível, os seus costumes.
Agostinho foi feito Bispo, bem como o
seu companheiro Paulinus, responsável
pelo batismo do rei Dewin, da Nortúmbia,
e pela “conversão” da nação.
Nessa época é estabelecido um importante
centro monástico na ilha de Iona, sob a
liderança de Santo Aidan.
O
período da Igreja Celta autônoma chegou
ao fim com a convocação, pelo rei Oswy,
da Nortúmbia, de delegados celtas e
romanos, para um Concílio na cidade de
Whitby, em 664, quando os celtas
aceitaram a data da Páscoa romana e se
submeteram à autoridade papal, apesar de
resistências de vários líderes, como São
Cutberto, Bispo de Lindisfarne (uma
histórica Sé celta). O Papa cria o
Arcebispado de York, segundo em honra ao
Arcebispado de Cantuária, e símbolo da
herança celta. Não houve uma
continuidade de sucessão apostólica dos
bispos celtas. O Episcopado Histórico
Anglicano tem início com Agostinho.
A
FASE CATÓLICO-ROMANA (Séculos VII a XVI)
Nos
primeiros séculos, após a vinculação com
a Igreja de Roma, prosseguiu a vida
tradicional da Igreja Celta, mas a
criação das Dioceses e a designação de
bispos, com a evangelização das áreas
mais remotas, e uma maior disciplina
para o clero, sendo percebido como líder
de toda a Igreja inglesa, foi obra de
Teodoro de Tarso, titular de Cantuária
por 21 anos. Os papas canalizaram o
fervor missionário dos celtas para a
evangelização da Alemanha e da
Escandinávia. Politicamente, a
Inglaterra não era um país unificado,
mas um conjunto de reinos e feudos, aos
quais se ligavam os párocos de aldeia.
Enquanto isso, o monasticismo celta ia
adotando a regra beneditina. Os séculos
VII e VIII produziram intelectuais de
expressão, como Adelmo, Alcuino e o
Venerável Beda, autor da “História
Eclesiástica do Povo Inglês”.
No
século IX a Inglaterra foi invadida
pelos vikings, que destruíram quase tudo
o que tinha sido construído pela Igreja,
saquearam Cantuária e incendiaram a
Catedral. Alguns desses invasores se
fixaram na terra concorrendo para o
sincretismo com o cristianismo popular,
particularmente a prática de magias.
Ironicamente, enquanto os vikings
escandinavos estavam destruindo o
cristianismo inglês, os missionários
ingleses estavam evangelizando a
Escandinávia. A resistência aos
invasores se fez, principalmente, a
partir do reino cristão de Wessex,
liderado pelo rei Alfredo, cujas leis se
constituíram na base do Direito inglês,
e que foi denominado de “o protetor
dos pobres”. Outro foco de
resistência foi um movimento de
reavivamento monástico, liderado por
Dunstam, Abade de Glastombury, e, depois
Arcebispo de Cantuária. No século X a
Inglaterra caminhava para uma maior
união política, e a Igreja contava com
18 Dioceses, com todos os cargos
paroquiais preenchidos.
Em 1016
a Inglaterra sofreu nova invasão
normanda, mas, dessa vez, tendo à frente
um cristão convertido, dinamarquês de
nascimento, Cnut, que foi proclamado rei
do país, aprofundou os vínculos dos
cristãos ingleses com a Igreja de Roma,
e quebrou o monopólio dos beneditinos,
abrindo as portas para outras ordens e
congregações.
Já se
afirmou que:
“A conquista normanda deu fim a uma era de sete séculos de um
cristianismo inglês, que tinha nascido
na Britânia romana e tinha passado,
sucessivamente, pelas etapas celta,
anglo-saxônica e escandinava. Do tempo
de Agostinho em diante, por quatro
séculos, a Igreja Inglesa tinha estado
na órbita papal. Na era normanda, a
autoridade papal passaria a ser
fortalecida grandemente...”.
Outro
autor, comentando esse período, afirmou:
“...sempre houve uma certa insatisfação na Igreja Inglesa, por ter que se
submeter a uma Igreja estrangeira
(romana). Esta animosidade se
intensifica a partir do décimo segundo
século, e dá início a tensões que são
inegáveis. No século XII, por exemplo, o
rei Henrique II limitou o poder do clero
inglês, quando lhe proibiu a
possibilidade de apelar a Roma, quando
limitou a autoridade da Igreja em
imprimir censuras, e quando subordinou a
permissão ao rei as viagens dos bispos
para o exterior. Em 1164, ficou
estabelecido, na Dieta de Cheredon, que
a eleição dos prelados só se faria com a
aprovação do rei, a quem os eleitos
antes da sagração deveriam prestar
juramento de vassalagem e fidelidade. O
Ato de Provisão (1351) e o Estatuto
Praemunire (1353) proíbem,
respectivamente, a entrada em território
britânico de qualquer bula ou sentença
papais, e impedem a apelação a tribunais
eclesiásticos estrangeiros, declarando
ilegítimas todas as nomeações feitas
pelos papas”.
As
tensões entre os monarcas e os papas
eram uma marca da Europa daquela época,
com o início das consciências nacionais
(que resultariam na criação dos Estados
Nacionais) e os sentimentos
nacionalistas. Um caso dramático foi,
primeiro, o exílio, e, posteriormente, o
assassinato do Arcebispo de Cantuária
Thomas Becket, no reinado de Henrique
II.
No
século XIII, com a ida para as cruzadas
do rei Ricardo, “Coração de Leão”,
assumiu o trono inglês o seu irmão,
João, o “Sem Terra”, a que os
nobres, reunidos em Parlamento, forçaram
a assinar o histórico documento de
direitos, a “Magna Carta” (1215),
onde aparece pela primeira vez a
expressão “Igreja Anglicana”, na
cláusula que diz “a Igreja Anglicana
será livre”.
O século
XIV significou um momento de inflexão na
história medieval, com o início da
decadência do poder papal, com o chamado
“Cativeiro Babilônico”, com os
papas, de 1309 a 1377, prisioneiros dos
reis franceses em Avignon (todos os
papas desse período foram franceses...),
e o desgaste para a instituição com um
papa em Roma excomungando o Papa de
Avignon e vice-versa. A eleição de um
terceiro papa “desempatador” não
foi aceita, e somente com a eleição de
um quarto papa, com suficiente respaldo
dos poderes temporais, houve o regresso
a um papado unificado, mas desgastado e
fragilizado.
É nesse
contexto que a Inglaterra vai ser o
lugar para o mais importante episódio da
Pré-Reforma, com John Wycliffe
(1328-1384), professor da Universidade
de Oxford, denominado de “a estrela
matutina da Reforma”. Wycliffe teceu
fortes críticas à instituição do papado,
condenou a simonia (compra de cargos
eclesiásticos) e as indulgências
(anistia de pecados mediante pagamento),
negou a doutrina da transubstanciação,
defendeu o confisco dos bens da Igreja
pelo Estado, e a necessidade do povo
conhecer as Sagradas Escrituras em sua
própria língua, sendo as mesmas o único
fundamento da fé. Suas idéias correram a
Europa, e influenciaram Jerônimo,
professor da Universidade de Praga (na
Boêmia, província Tcheca) e seu jovem
discípulo Jan Huss, que, apesar de ter
conseguido um Salvo Conduto do Concílio
de Constança, foi queimado vivo.
Wycliffe
fundou, dentre os jovens alunos de
Oxford, oriundos da aristocracia, uma
ordem mendicante, conhecida como os
“Lolardos”, que iam pelas aldeias
pregando e distribuindo porções
bíblicas, e que foi condenada pelo
estatuto “De Herético Carburendo”,
que autorizava a execução dos que não
abjurassem. O movimento, mesmo
perseguido, permaneceu clandestino por
cerca de um século e meio, até a
Reforma.
A
FASE REFORMADA (Século XVI aos Nossos
Dias)
O
Sacro-Império Germânico Romano, como
unidade política sob a hegemonia papal,
estava se desintegrando sob a força do
emergente nacionalismo. O feudalismo
também iniciava o seu declínio. Dentre
as forças políticas medievais,
declinavam o Papa, o Imperador e os
Barões, e se fortaleciam os Reis e a
nobreza. O próximo passo seria a
independência dos países, mas romper com
o Sacro-Império era, também, romper com
o papado. A situação da Inglaterra não
era diferente, com a diferença que sua
Igreja fora independente no passado, que
sempre tinha mantido uma relativa
autonomia, e que recebera a influência
da Pré-Reforma de John Wycliffe.
Ao
contrário de Wycliffe, Lutero e os
reformadores tiveram a seu favor a
descoberta da imprensa e a conversão do
seu inventor, Gutemberg, o que
possibilitaria uma rápida disseminação
de suas idéias. As 95 Teses foram
afixadas por Lutero, em Wittemberg, em
31 de outubro de 1517. Já em 1520 as
idéias protestantes eram estudadas pelo
clero inglês e por professores e alunos
das Universidades de Oxford e Cambridge.
Cambridge se tornou, desde cedo, o
epicentro da Reforma Inglesa, com as
reuniões de debate se dando todas as
tardes na Taverna do Cavalo Branco.
Por um
lado, temos que desmitificar a versão de
que “a Igreja Anglicana foi fundada
pelo rei Henrique VIII”, pois, como
já se disse: “A Reforma Inglesa viria
com Henrique VIII, sem ele ou contra
ele”.
Henrique
VIII, a partir de 1509, teve uma gestão
positiva como rei, fundando a primeira
escola secundária pública do reino, em
um anexo à Catedral de Cantuária (o
“King’s School”), que funciona até
hoje. A questão da sucessão dinástica
não era, então, um assunto privado, mas
uma questão de segurança nacional.
Anulações de casamentos, por interesse
político, já conheciam precedentes por
parte do papado. O que não acontece em
seu caso, em razão da sua primeira
esposa ser sobrinha do Imperador. O rei
era, originalmente, um devoto católico
romano, chegando a escrever um texto
para refutar as posições de Lutero sobre
os Sacramentos, recebendo do papa o
título de Defensor da Fé (Defensor
Fidei), usado pelos reis ingleses ainda
hoje.
O
cenário começa a mudar com a posse de
Thomas Cranmer como Arcebispo de
Cantuária, em 1533. Cranmer, professor
em Cambridge, já tinha aderido ao
Protestantismo, e era um dos componentes
do grupo da Taverna do Cavalo Branco.
Ele anula o primeiro casamento do rei, e
celebra o novo casamento. O Parlamento –
cheio de nacionalistas – aprova essas
medidas. O Parlamento agora tratando o
papa de “o Bispo de Roma, também
chamado de Papa”, foi aprovando uma
sucessão de leis de afirmação da
autonomia da Igreja Inglesa. Os
mosteiros foram dissolvidos. As terras
da Igreja sofreram uma reforma agrária.
Suspendeu-se o envio de impostos para o
papa e para o imperador. O rei recebeu,
em 1534, o título de “Governador e
Suprema Cabeça da Igreja”. O
Arcebispo de Cantuária é estabelecido
como titular da hierarquia. Surgia a
Igreja da Inglaterra como Igreja
Nacional.
A
Reforma Inglesa se deu por Atos do
Parlamento sancionados pelo rei, com o
apoio dos intelectuais e da liderança do
clero. Embora a Bíblia (secretamente) já
fosse distribuída desde Wycliffe, no
século XIV, agora o povo a demandava
abertamente, o que foi feito com a nova
tradução para o vernáculo, liderada por
William Tyndale.
De seus
casamentos, o rei Henrique VIII, ao
falecer, deixara três filhos, de três
esposas diferentes, que seguiam a
religião de suas mães: Eduardo, o mais
velho e Elizabeth, a mais nova, eram
protestantes; e Maria, a do meio, era
católica romana.
De 1547
a 1553 reinou Eduardo VI, que, por ser
menor de idade, foi assessorado por
regentes, igualmente protestantes, que
aprofundaram a Reforma, com a aprovação
pelo Parlamento, em 1549, do Livro de
Oração Comum (LOC) compilado pelo
Arcebispo Cranmer. Os altares de pedra
foram substituídos por mesas de madeira,
o celibato clerical foi revogado, o povo
passou a receber a Ceia nas duas
espécies, foram retiradas as imagens dos
altares, a Eucaristia deixou de ter um
caráter sacrificial, foi abolida as
orações pelos mortos e simplificadas as
vestes clericais. São decretados os
“Quarenta e Dois Artigos”, de forte
inspiração calvinista.
De 1553
a 1558 reinou Maria, que se reconcilia
com Roma, impõe de volta a religião
católica romana, recebendo o epíteto de
“a sanguinária”, por ter sido
responsável pela execução de mais de 300
clérigos, dentre eles o Arcebispo de
Cantuária Thomas Cranmer (o pensador
principal da Reforma Inglesa) e os
Bispos Latimer e Ridley, queimados vivos
na estaca no centro de Oxford. Na
execução, já queimando, o Bispo Latimar
gritou para o seu companheiro de
infortúnio: “Conforte-se, mestre
Ridley, e seja homem; devemos encarar
esse dia com sendo candelabros da Graça
de Deus sobre a Inglaterra, e essa chama
jamais será apagada”.
Segue-se
o longo reinado de Elizabeth I, de 1558
a 1603, que rompe, outra vez, com a
Igreja de Roma, edita, em 1559, uma nova
versão do Livro de Oração Comum (LOC),
como única liturgia oficial, reduzindo
para 39 “Os Artigos de Religião”.
Elizabeth sofre pressão; de um lado, do
remanescente dos restauracionistas
pró-Roma, e, do outro, dos
“puritanos”, que voltavam do exílio
sob forte influência de expressões mais
extremadas da Reforma. Ela se mantém
fiel ao espírito da Primeira Reforma,
fazendo o Parlamento aprovar duas leis
fundamentais: O Ato de Supremacia e o
Ato de Uniformidade, o que significaria
não voltar para Roma e não ceder às
pressões de Genebra. Esse
“estabelecimento elizabethano”
forjou a face do Anglicanismo, como
Igreja Católica e Protestante. O
principal pensador dessa época, e
defensor da “via média”
Anglicana, foi Richard Hooker, autor da
obra clássica “Das Leis da Política
Eclesiástica”, 1594.
Com a
morte de Elizabeth, em 1603, assume o
trono o rei Jaime I, da Escócia, que
autoriza a edição da famosa “Bíblia
King James”, sendo sucedido, em
1625, por seu filho Carlos I, tentando
manobrar no meio do conflito entre
romanistas, elizabethanos e puritanos,
todos insatisfeitos, e com seus próprios
projetos.
Uma
Guerra Civil tem início em 1642, vencida
pelo exército de hegemonia puritana, que
prende o rei Carlos I e o executa, em
1649. A partir de 1643, todo poder
permanece com o Parlamento, que
estabelece o presbiterianismo como
religião oficial, e convoca a Assembléia
dos teólogos calvinistas para, reunidos
na Abadia de Westminster, redigirem um
Guia de Culto, uma Confissão de Fé e um
Pequeno e um Grande Catecismo. Em 1648,
Oliver Cromwell, máximo dirigente
militar, dissolve o Parlamento e dá
início a uma ditadura de puritanos, se
denominando de “Protetor”. Com
sua morte, em 1660, o seu filho Richard
não consegue segurar o regime. O
Parlamento volta a funcionar normalmente,
chamando para o trono o filho de Carlos
I, Carlos II, restaurando o Episcopado e
o Livro de Oração Comum (LOC), retomando
a hegemonia Anglicana.
Perto de
sua morte, em 1685, Carlos II abraça o
catolicismo, e é substituído por seu
irmão Jaime II, um católico, que
pretendia nova vinculação à Igreja de
Roma, o que põe a nação inglesa em
ebulição. A aristocracia, respaldada
pela maioria do exército, da burguesia e
do povo, entra em contato com a princesa
Maria, filha de Jaime II, casada com o
príncipe holandês, Guilherme de Orange,
ambos protestantes, que concordam em
derrubar o pai/sogro. Em 18 de dezembro
de 1688, o rei Jaime II foge de Londres,
e Guilherme e Maria entram,
triunfalmente, no que viria a ser
denominada de “A Revolução Gloriosa”,
pelo não derramamento de sangue e pelo
alto consenso.
No final
do século XVII, 154 anos desde a
separação de Roma com Henrique VIII,
após avanços e recuos em várias direções,
surge uma nova nação inglesa com uma
Monarquia Parlamentarista e uma Igreja
Nacional, que, com pequenos ajustes,
restaura o estabelecimento elizabethano.
A Igreja na Inglaterra se torna a Igreja
da Inglaterra. O Anglicanismo – católico
e reformado – se torna um ramo
específico na Igreja de Cristo.
BIBLIOGRAFIA
A
História da Igreja da Inglaterra,
apostila, Série “Partilha Teológica
nº.1”, IEAB.
Aquino,
Jorge L. F. Anglicanismo: Uma
Introdução. DAR, Recife, 2000.
Durval,
Silva N. A Igreja Militante. IEB.
Gonzalez, Justo L. Uma História
Ilustrada do Cristianismo. Edições
Vida Nova, São Paulo, 1989.
Kung, Hans. Christianity: Essence,
History and Future. Continuum
Publishing, New York, 1998.
Moore, Peter. A Church to Believe in.
Latimer Press, Solon, 1994.
Neil, Stephen.
El
Anglicanismo.
M.E.C, Barcelona, sd.
Silva,
N. Durval. A Igreja Militante.
Tipografia Rotermund & Co., São Leopoldo,
1951.
¬
Bispo Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife; cientista político,
advogado, palestrante nacional e
internacional. Esta é a primeira
aula do Seminário Anglicano
Teológico – SAT-PE, proferida no
dia 11 de fevereiro de 2008, nas
dependências da Catedral
Anglicana do Bom Samaritano, em
Recife-PE.
www.dar.org.br